O ADVENTO DA
REPÚBLICA E OS GRUPOS ESCOLARES NO PARANÁ (1900 – 1920)
Maria Isabel Moura Nascimento[i]
A presente pesquisa pretende ser uma
contribuição para o estudo da escola pública no Brasil, é parte de um projeto nacional do HISTEDBR.[ii]
O GT Campos Gerais[iii] propôs
estudar os primeiros grupos escolares,[iv]
com o objetivo da preservação da memória escolar na região dos Campos Gerais do
Paraná. Para isso será feito o resgate histórico para compreender como essas
instituições escolares foram criadas na região, e qual relação com o projeto de
modernização da sociedade brasileira. A
expansão da instrução pública foi idealizada no final século XIX e implantada
em algumas capitais do país, no início do século XX, com a criação dos grupos
escolares. Nos Campos Gerais – PR, os grupos escolares foram criados e
desempenharam papel fundamental para a consolidação das idéias republicanas na
região.
O tema limita o estudo aos primeiros
grupos escolares públicos nos Campos Gerais no Paraná no período de (1900-1920).
Procura compreender o esforço realizado nos Campos Gerais nos primeiros anos da
República, para criar uma estrutura de ensino capaz de atender às aspirações do
regime republicano.
Este texto, reflete as primeiras
reflexões sobre o tema da Escola Pública no Paraná, devido a pesquisa estar no
processo de inicial de desenvolvimento.Com o levantamento das fontes primárias
e secundárias das instituições escolares públicas da região, que estão sendo,
catalogadas de forma digital para compor um acervo, para que possa ser
disponibilizada para outros pesquisadores em história da educação. O trabalho
com estas fontes tem o objetivo de:
- identificar e caracterizar o pensamento educacional que permeava as lideranças dos
Campos Gerais, principalmente na fase da Primeira República;
- Arrolar as instituições escolares
dos Campos Gerais bem como relacionar, em grande parte, a sua documentação
existente nos arquivos públicos, museus, escolas, secretarias de ensino,
cartórios;
- mapear o material coletado para
formar um catálogo de informações com as fontes primárias e secundárias
coletadas da região dos Campos
Gerais-PR;
- analisar os ideais pretendidos
pelas lideranças dessa sociedade com a realidade factível;
-
identificar as formas e peculariedades com as quais os diferentes grupos
escolares, que ofereciam a educação elementar, se constituíram como
instituições.
- organizar as fontes primárias e
secundárias da educação dos Campos Gerias, em um banco de dados de forma que
outros pesquisadores possam utilizá-las;
- enviar os resultados do
levantamento para o HISTEDBR “História,
Sociedade e Educação no Brasil,” sediado na UNICAMP com o propósito de
colaborar com o catálogo nacional;
- publicar um catálogo das fontes
primárias e secundárias da região dos Campos Gerais.
O que surge como pano de fundo, na primeira república[v],
era uma preocupação marcante em acabar com o analfabetismo através da escola
elementar para as massas, que a partir de 1870 com a entrada do segundo grande
grupo de imigrantes “[...] de origem alemã, austríaca, italiana, polonesa,
russa, ucrânia, holandesa, sírio-libanesa, japonesa, sem excluir contingentes
menores de ingleses e fanceses[...](LINARES,p.31,n.78)” iniciou na região um
marco de “modernização.” Quando os grupos escolares iniciam a se estruturar na
região, paralelo ao predomínio da industrialização que irá reivindicar a
formação do operariado.
No início
do período republicano, o problema da instrução pública estava na criação dos
primeiros grupos escolares e na qualificação dos professores. Estes problemas
eram responsabilizados pela baixa presença das crianças nas poucas escolas
existentes em Ponta Grossa - PR.
As poucas
escolas públicas primárias que existiam funcionavam em estado precário, embora
fossem constantes as reivindicações de melhorias desde o final do século XIX,
por parte das autoridades do ensino. Fato que pode ser constatados nos
relatórios dos Inspetores Gerais responsáveis pelas chamadas cadeiras de
instrução primária. Essas, últimas no geral, funcionavam em uma única sala sob
a regência de um professor, que administrava, na maioria, das vezes diversas
séries no mesmo espaço de ensino. As escolas públicas republicanas foram
planejadas para serem humanistas, progressistas, democráticas, ou seja, para
todos e laica.
No projeto
liberal, dos republicanos nos Campos Gerais, surgem os primeiros grupos
escolares tornando-se esses a principal bandeira de ação política para a
consolidação do projeto da República. Somente em 1907 foi inaugurada a primeira
escola pública de ensino primário, “Instituto João Candido Ferreira,” em Ponta
Grossa - PR. Essa escola foi recebida com muita expectativa, pois as existentes, até então, eram
privadas.
A
sociedade considerava que o “ensino público havia fracassado, e muita gente
mandava seus filhos estudarem na Capital do Estado ou então em São Paulo.” Em 30 de junho de 1909, o pastor George
Bichertaph fundava a Escola Presbiteriana. E, em 20 de janeiro de 1912 era
fundada a Sociedade Espírita Francisco de Assis com escola primária e jardim de
infância.
Em 1916,
uma casa escolar surgiu junto a Igreja Luterana, dirigida pelo pastor Wilhelm
Fugmann. Cinco anos depois, ela passou a se chamar Escola Luterana. Em 1918,
Ester Ferreira funda o Colégio Pontagrossense de Instrução Primária, com turnos
diurno e noturno, que também oferecia curso de datilografia.
Apenas em 1910 é que a Câmara Municipal de
Ponta Grossa sanciona a lei que dava
direito ao prefeito a fazer
aquisição e ceder, pelo modo que julgar mais conveniente, a área de terreno
dentro desta cidade, suficiente para a edificação de um Grupo Escolar.” A lei, quando necessário,
também dava direito e poder ao prefeito, de desapropriar, vender, transferir
qualquer área de terreno, que fosse preciso para construção e expansão da
escola pública no município.
As escolas
primárias públicas que funcionavam em Ponta Grossa, no período de 1908 a 1916,
receberam um tratamento diferenciado por parte das autoridades do ensino,
porque elas passaram a funcionar em grupos escolares com a formação não apenas na Capital mas também
nas cidades mais desenvolvidas como é o caso de Ponta Grossa, que formam
escolas ou os chamados ”semigrupos” que continham (2 salas de aula) aglutinando
“cadeiras” dos tipos diversas (masculinas, femininas ou “promiscuas” mistas),
regidas por professores distribuídos entre as várias séries. Ocorriam, ainda o
funcionamento, na Capital e nos arredores, as escolas isoladas com uma única
sala e sob a regência de um professor.
Buscamos estudar esse movimento da
história para compreendermos a gêneses dos primeiros grupos escolares. Com o
objetivo de fornecer elementos para sua análise, a pesquisa busca selecionar elementos
com a intenção não só de colaborar na
interpretação dos sujeitos da época
sobre o qual o estudo se propõe a fazê-lo através das fontes, documentos
localizados, como também de buscar a compreensão desse processo histórico com
os elementos que foram selecionados, a luz também dos elementos
teóricos-metodológicos. Com isso, busca-se reconstruir uma parte da história da
educação nos Campos Gerais-PR, procurando direcionar este estudo para que ele
possa fazer parte dos trabalhos que vêm sendo desenvolvido no país,
principalmente na História da Educação Brasileira, e na compreensão do processo
de construção da escola pública no Brasil.
2-Primórdios da Educação Pública nos Campos Gerais-PR
No Início do período republicano, o problema da instrução pública
estava na criação dos primeiros grupos escolares e na qualificação dos
professores que eram poucos os formados na escola normal para a quantidade de
grupos escolares que eram inaugurados, pois as criações das escolas estavam
vinculadas ao voto dos eleitores, e estas eram a maior reivindicação dos
cidadãos com poder de voto.
Durante os primórdios do período republicano o número de escolas
era superior ao número de professores preparados para assumir essas cadeiras de
ensino elementar oferecida, portanto muitas escolas permaneciam fechadas embora
a reclamação do povo desde a província era que a “[...] quantidade de crianças
a educar era superior ao número de escolas criadas.”(Gazeta Paranaense,
p.8,1886)
No período republicano que nasceu o lema “governo do povo, pelo
povo e para o povo,” que significava, abrir para o povo mais escolas, mesmo que
essas fossem ficar fechada por falta de professores, pois não havia a
preocupação com a manutenção e muitos menos com a existência de professores
pudessem assumir os estabelecimentos de ensino
Esse estado de abandono em que as escolas se encontravam somados
a falta de professores aparece registrado nos relatórios oficiais quando da
visita obrigatória para verificação do estado de funcionamento das escolas
admitindo no relatório que embora o
“Estado,
tendo o dever imperioso de precaver-se contra os perigos da ignorância não tem
se descuidado de criar escolas onde há população escolar. Que valle espalhar
escolas por toda a parte, se não temos pessoal idôneo, capaz de exercer com
atruísmo a nobre e santíssima profissão de mestre?” (Paraná, Gov.do Estado, 1901,vol.
5)
A herança deixada pelo Império para a república com relação a
instrução pública era de extremo abandono por parte dos governantes. Ancorado
na constituição de 1834, que determinou a descentralização do ensino, passando
para as províncias a responsabilidade da instrução isso fez com que houvesse
uma omissão da parte dos Poderes Geral e Provincial, diretamente com a
instrução, pois as províncias recém formadas não tinham recursos para arcar com
a responsabilidade de criar e manter as escolas em todos suas necessidades.
Nos discursos políticos, a escola passou a ser enaltecida como
força propulsora do progresso do país, que deveria formar os cidadãos republicanos,
dar noção dos conhecimentos elementares da escrita, leitura, cálculo e
princípios morais e cívico que os habilitassem para industrialização que
iniciava no país.
As defesas da escola públicas nos relatórios dos inspetores
gerais eram freqüentes bem como, os pedidos para criação de grupos escolares
preparados para atender as crianças com espaços adequados, diferentes dos que
existiam, que eram pequenas salas de aula, sem ventilação, luz apropriada e sem mobiliário.
Em todo o Estado do Paraná o ciclo do mate iniciou no caminho das
tropas[vi].
O mate foi a principal atividade econômica de todo estado desde 1820,
contribuindo “[...] o mesmo, com uma parcela na produção e beneficiamento da
erva ou, principalmente, através de atividades periféricas por ele gerados[vii]”(MARTINS,
p. 144)
O mate como uma das principais
atividades econômica no Estado, sua importância enquanto produto econômico foi
decisivo para ajudar na emancipação política do Estado. “Os maiores
consumidores sempre foram a Argentina e o Uruguai, supridos pela produção do
Paraguai. Com a eclosão da Guerra do Paraguai, a partir de 1864, estes mercados
passaram a ser atendidos pelo Brasil” ( MARTINS, p. 150)
3-Criação dos Grupos Escolares
A origem dos grupos escolares nos Campos Gerais no Paraná,
estava relacionada com projeto republicano da educação popular. No ideário
liberal dos Republicanos Paranaense a instrução tinha um lugar de destaque,
compreendida como instrumento indispensável para consolidação da república.
O esforço de expandir o
ensino elementar estava centrada na expansão quantitativa do número de escolas
e ampliação do número de escolas e
ampliação do número de matrículas, foi a direção norteadora das políticas
educacionais não só nos Campos Gerais como em todo país, durante a Primeira
República.
Seguindo as orientações dos princípios liberais institucionais,
já na primeira Constituição republicana do Estado: ensino livre, público,
laico, obrigatório, científico, com a finalidade precípua de formação do
cidadão republicano- formação, sobretudo, moral, cívica e intelectual.
O atendimento do ensino elementar das camadas populares, era
feito, através da atuação da escola pública nos grupos escolares que se
organizavam nos centros urbanos e das escolas urbanas, suburbanas ou rurais – e
das escolas noturnas.
Os inspetores defendiam que os grupos escolares deveriam ser
criados e só assim “[...] uma
medida...mais metódica, radical e cosentânea com os modernos planos
pedagógicos..., do que as pequenas escolas isoladas, derivadas das antigas
cadeiras de instrução primária.” (RELATÓRIO, p.62,1908).
Os grupos escolares representavam para os republicanos um avanço
no ensino, à medida que traziam, para um prédio único, classes isoladas, com a
direção de um professor habilitado e a Escola Normal; a organização das classes
passa a ser feita segundo critérios de grau de adiantamento, com um professor
para cada ano.
A criação dos grupos escolares representou uma medida econômica,
pois, reunia vários alunos, de várias séries e uma equipe de trabalho num mesmo
só espaço, constituindo uma organização administrativa e didático-pedagógico.
Cada grupo contava com um diretor, porteiro e serventes que foram assim como os
professores, sendo selecionados por concurso público e por outro lado o
controle seria mais uniforme, não só da equipe de trabalho quanto da clientela
a ser atendida.
Do agrupamento de 4 a 10 escolas
isoladas podia ser formado um grupo escolar. E as classes seriam formadas em 1a,
2a.,3a.e 4a. anos do curso preliminar com um
número de 40 alunos por classe, com um professor para cada turma. No mesmo
grupo escolar poderia ter classes masculinas e femininas sem distinção do
número de vagas por sexos.
A formação de classes homogêneas no
mesmo grupo escolar, tornou-se um novo
padrão de qualidade no Estado, sendo considerado de qualidade superior à
educação oferecida nas escolas isoladas, que sobreviviam “[...]a sombra dos
grupos escolares nas cidades, nos bairros e nos campos” (SOUSA, p.51, 1998) Os
benefícios vinham primeiro para os grupos escolares e as escolas isoladas
sobreviviam com a sobra desses grupos centrais e da ajuda do pouco que a
comunidade possuía, pois em geral essas escolas estavam localizados em
lugarejos. Consideradas de
“[...] ordem inferior, mal
instaladas, esquecidas, sem estímulos para a existência proveitosa. A própria
criança formou consigo esse padrão entre aluno do grupo e aluno da escola,
indispondo-se à freqüência desta última por não saber que lhe é negada a
matrícula entre os meninos do Grupo Escolar.” (Relatório do Inspector Municipal, Paulo Álvares
Lobo,1898,p.47 Apud. Sousa, Rosa Fátima de. Educação e Tradição: EEPG
“Francisco Glicério “ De Campinas 1897 – 1997)
Os grupos escolares se expandiram por todo Estado. Em 1916,
existiam dez grupos escolares e aproximadamente cinco escolas isoladas. Em
Ponta Gross,a nas duas primeiras décadas do século XX, foram inauguradas “[...]
nada menos de 28 estabelecimentos de ensino, contados os estaduais,
municipais e particulares[...] A população escolar deve ser de de10000 para
cima.” (VICTOR, p.221)
Em 1922, de acordo com as
estatísticas escolares, as escolas mantidas pelo Estado do Paraná eram
freqüentadas por 25.689 alunos, dos quais 13.260 do sexo masculino. Com relação
as escolas isoladas a matrícula chegou a 17.616 alunos e nos grupos escolares
regimentais e escolas para operário atingiu 12.379 alunos. Considerando que
algumas escolas permaneciam fechadas por falta de professores, a república até
então conseguiu atingir um número de 27.000 alunos.
Os grupos da Capital do Estado e do
Interior em 1924 representavam naquele período histórico os seguintes índices.
|
Grupo Escolar Dr Xavier da Silva |
671 |
|
Grupo Escolar 19 de
Dezembro |
339 |
|
Grupo Escolar Tiradentes |
251 |
|
Grupo Escolar Iliveira
Bello |
256 |
|
Grupo Escolar Annexo |
220 |
|
Grupo Escolar Professor
Cleto |
150 |
|
Grupo Escolar Rio Branco |
277 |
|
Grupo Escolar Professor
Brandão |
194 |
|
Grupo Escolar Cons.
Zacharias |
204 |
|
Grupo Escolar Cruz Machado |
166 |
|
Grupo Escolar Presidente
Pedrosa |
245 |
|
Jardim da Infância Maria de
Miranda |
154 |
|
Jardim da Infância Emilia
Erichsen |
87 |
|
Escola Intermediária de
Ponta Grossa |
77 |
|
TOTAL |
3.291 |
Fonte: Revista O Ensino, num.3,
anno1- Setembro de 1922
|
Grupo Escolar de Ponta
Grossa |
476 |
|
Grupo Escolar de Paranaguá |
344 |
|
Grupo Escolar de Castro |
290 |
|
Grupo Escolar de Morretes |
282 |
|
Grupo Escolar da Lapa |
253 |
|
Grupo Escolar Rio Negro |
246 |
|
Grupo Escolar Jaguariahyva |
204 |
|
Grupo Escolar Campo Largo |
196 |
|
Grupo Escolar Imbituva |
190 |
|
Grupo Escolar São Matheus |
177 |
|
Grupo Escolar Tibay |
151 |
|
Grupo Escolar Jacarezinho |
148 |
|
Grupo Escolar Antonina |
144 |
|
Grupo Escolar U. da Vitória |
141 |
|
Grupo Escolar Guarapuava |
110 |
|
Grupo Escolar Palmeira |
105 |
|
Grupo Escolar São José dos Pinhaes |
96 |
|
Grupo Escolar Prudentópolis |
49 |
|
Jardim da Infância de Ponta Grossa |
70 |
|
Jardim da Infância de Paranaguá |
59 |
|
Escola Intermediária de Ponta Grossa |
41 |
|
Total |
3.772 |
Fonte: Revista O
Ensino, num.3, anno1, Setembro de 1922
Os alunos que freqüentavam os
primeiros grupos escolares eram alunos provenientes de varias camadas sociais,
com predominância dos filhos de imigrantes alemães devido a grande campanha que
se fazia na época contra a falta de nacionalismo das colônias que mantinham as
suas próprias escolas, utilizando a língua de origem. Essa situação passou a
ser considerado uma falta de nacionalidade. As escolas das colônias eram
fechadas quando visitadas pelos Inspetores, e detectava-se esta situação.
Nas colônias extrangeiras e villas,
onde a inspecção official determinou o
fechamento de escolas, por ser a nossa língua de todo desconhecida, quer dos
professores, quer dos alumnos, apezar destes terem nascidos aqui, começa agora a reflectir-se a nova
acção, apparecendo de tempos em tempos um requerimento, no qual se pede
autorisação para reabertura de escolas. Nos exames de Dezembro para professores
effectivos, hove alguns candidatos, de nacionalidade polaca, que foram
approvados com excelentes notas e por isso tiveram ordem de poder abrir suas
escolas, sob a condição de todo o ensino ser ministrado em portuguez e figurar
no programma a História e a Geografia pátrias. Jornal (O Progresso, Anno V, n
510, 11.01.1912).
A rigidez disciplinar, era vista como
sinônimo de competência, por isso, considerava-se o melhor professor ou
diretor, aquele que agia sobretudo com a máxima energia;
[...]Tudo nos eixos, tudo em larga via!
Agora o caso vai ficar mais fino:
Não se admite, nunca, a rebeldia,
Seja moça ou rapaz, seja menino.
O uniforme dos alunos faz parte dessa campanha e mais as saias usadas
pelas alunas passavam por um processo de extrema rigidez quanto ao cumprimento.
Não podem mais as moças, senhoritas,
As saias usar, curtas, pequeninas,
Mostrando pernas, a fazer zumbaias.
E para vigiar as alunas colova-se uma
funcionária, mesmo que,
De cara feia, mesmo atrabiliária,
Medindo o comprimento dessas saias! ( Lusimaco, 1924, p. 30)
No Município de Ponta Grossa,
foi somente no ano de 1924, que os investimentos na escola pública permitiu que
muitas crianças estudassem. Eram cerca “[...] de 3000 creanças recebam luzes
nos Grupos e nas escolas isoladas”
(Jornal Diário dos Campos, 6.8. 1924)
Os grupos escolares foram unificados, em todo Estado o número de escolas
aumentava a cada
“[...] 803 unidades escolares
funccionaram durante o quatriennio governamental que fundou a 25 de fevereiro
deste anno, sendo 605 isoladas e 198 grupos, dos quaes 10 na Capital e 17 no
interior, dos mais importantes, incluindo quatro jardins de infância da Capital
de Ponta Grossa e Paranaguá. A matrícula foi de 36.893 alumnos. Houve um
augmento de 16 grupos em relação ao anno de 1919.” (O Progresso. A Instrucção
no Paraná.1924 6.8)
O sucesso da escola pública, divulgado pela impressa escrita era
atribuído à:
“a)Uniformidade de livros escolares.
b) Esplendidos horários
para Grupos e escolas isoladas
d) Efficiente
fiscalização de ensino
f) Reforma do ensino
nos grupos e escolas isoladas. Novos e modernos methodos.
g) Suppressão da
auctoridade escolares na direcção dos Grupos Escolares.
h)Regular e efficiente
fornecimento de material escolar.
i) Fundação de Caixas
Escolares em innumeras localidades.
j)Elevação considerável
da matricula e promoção de alumnos no final de anno, com o novo caracter que se
imprimiu ao Estado Público
k) Fabricação de
carteiras e mobiliário escolar, econômica, dentro do próprio Estado.
j) Superioridade de
ensino
l)Superioridade de
ensino ministrado nas escolas publicas, o que levou a diminuir
consideravelmente a matricula das escolas particulares.
m) Diffusão do ensino
nos campos.
n) Economia
administração da verba destinada à Instrucção Pública.
(O Relatório do Prof. Cezar Martinez Progresso 20.08.1924, NUM 3.698 Anno XVIII)
Embora a educação
para o povo fosse o alvo nos discursos dos republicanos e, mesmo com a abertura
dos grupos escolares, uma parcela da população era atendida no Estado do
Paraná, não representava a totalidade da demanda por educação. Não era
suficiente para acabar com analfabetismo e muito menos atender os alunos em
idade escolar que precisavam da instrução pública.
4 Questões
metodológicas
Estudar a criação dos primeiros
grupos escolares nos Campos Gerais-PR, necessariamente terá que ser
desenvolvido um movimento constante, através do estudo das lutas, conflitos,
embates e acomodações que nem sempre estão aparentes. Buscamos compreender como
essa sociedade reivindicou e organizou-se, a partir dos diversos grupos
imigratórios (internos e externos), essas diferentes tradições trazidas, cujas
experiências adquiridas, principalmente de idiomas e claro com referências aos
nacionais diferenciados no Brasil do início dos anos XX, dão sinais fortes de
um nacionalismo para fortificar a idéia de um país republicano. A região foi
organizada entre nacionais e estrangeiros, trabalhadores do campo, da cidade ou
de diferentes regiões do país e, nesse emaranhado, investiga-se o processo do
qual esse povo foi escolarizado e em quais condições eles se preparavam para
formar essa população espalhada em lugarejos, vilas e cidades, numa região onde
as relações étnicas e de classe sociais se deram de formas diversas e
enfrentadas no mesmo espaço territorial político, econômico e social com
transformações contínuas nas quais as “regras” eram diferenciadas, mas as leis
eram as mesmas.
Tudo isso passa também pela forte
preocupação empírica constante que o estudo necessita para selecionar as fontes
e isso não é uma preocupação apenas dessa pesquisa. Ela vem se acentuando
nestes últimos dez anos com bastante ênfase nos grupos de trabalhos espalhados
pelo país. Os grupos compreendem a necessidade da preservação e restauração das
fontes primárias, principalmente os pesquisadores que estão trabalhando com as
instituições de ensino superior, onde através de suas pesquisas, conseguem
mobilizar a comunidade. Com isso, pode-se observar uma relação mais sistemática
entre os historiadores da educação em organizar essas fontes, não só para
disponibilizar de forma interna, junto a sua instituição mas também para outros
estudos através de publicação em catálogos ou on-line; isso tudo em cada IES,
armazenado em banco de dados, podendo se fazer uso de fontes documentais que
ainda não haviam sido utilizadas, especialmente os acervos cartoriais, cartas
dos presidentes das províncias, manuscritos, jornais, inventários e outros.
Isso significa que historiadores da educação têm ampliado seus objetos, e que
têm passado por eixos que não são fáceis de coletar mas que se fazem
necessário, através das fontes, pode-se ampliar as possibilidades de estudar as
especificidades regionais e nacionais do objeto de estudo.
As fontes coletadas fazem parte do
“...objeto da história, não só na descoberta do documento que é unicamente um
meio de conhecimento, mas a reconstituição histórica baseada em documentos
autênticos e fidedignos” (LINHARES, 1953, n.78). para a compreensão de como
durante o período de 1900-1920, com diferentes sujeitos, e situações também
diferenciadas
No tocante à coleta de dados e busca
de fontes, estamos trabalhando com a documentação existente no Arquivo Público
de Curitiba; Arquivo Público de São Paulo; Bibliotecas da Universidade Estadual
da Unicamp: -Faculdade de Educação, -Biblioteca Central e departamento de Obras
Raras; Bibliotecas da Universidade de Ponta Grossa - UEPG; Biblioteca Pública
de Ponta Grossa; Casa da Memória- Pr; Colégio Estadual Regente Feijó-PR;
Colégio Sant’ Ana; Colégio SEPAM de Castro (antigo Colégio São José); Instituto
de educação César Prieto Martinez; Colégio Senador Correia; Museu Campos
Gerais- PR; Núcleo Regional do Ensino - Ponta Grossa - PR; Setor de
Documentação da Secretaria de Educação do Estado do Paraná em Castro. Nossa
busca de fontes tem o objetivo de estudar o trajeto possível para criação dos
primeiros grupos escolares nos Campos Gerais, bem como em outros locais que
reúnam informações relativas ao tema.
Estudar a identidade dos primeiros grupos escolares nos Campos
Gerais, é buscar identificar quais são as bases de produção material do período
histórico e quais são as condições reais da formação dos primeiros grupos
escolares, uma vez que partimos de uma realidade concreta que irá determinar a
divisão social e técnica dos grupos escolares, na primeira república. A
formação desses grupos escolares analisada a partir da compreensão dos
princípios educativos que nortearam essas escolas na primeira república ou
república velha. Esses alunos, professores e equipe técnica, são os indivíduos
históricos que fazem parte do “[...]
processo real de produção, partindo da produção material da vida
imediata;[...]ou seja, a sociedade civil
em suas diferentes fases.” (MARX, p.55,1993)
O que significa segundo (MARX, p.55,1993) “[...] permitir então
naturalmente, expor a coisa em sua totalidade”. Com isso não estou pensando em
estudar o problema de forma idealista, pois
as condições históricas em que estas escolas foram formadas têm um sentido todo particular, o
que nos interessa são as condições em que foram pensadas e quais os agentes
produtores destas idéias, resgatando na história os indivíduos que estiveram envolvidos neste período histórico.
Referências Bibliografias:
JORNAL O Progresso , Anno V, n. 510
,11.01.1912, Casa da Memória Ponta Grossa
JORNAL O Progresso. A
Instrucção no Paraná. 6.8.1924. Casa da Memória-Ponta Grossa
JORNAL,
Gazeta Paranaense, p.8,1886. Arquivo Público de Curitiba.
LINHARES, Temístocles. Paraná
Vivo. Um retrato sem retoques, Curitiba:Imprensa Oficial, 1954.
MARTINS, Romário. História do
PARANÁ. 3A. Edição, São
Paulo: Editora Guaíra.
MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã (I – Feuerbach). Tradução: José Carlos Bruni e Marco Aurélio Nogueira 9ª ed. São Paulo, Hucitec, 1993.
PARANÁ,
Gov.do Estado, 1901,vol. 5 Arquivo Público de Curitiba.
RELATÓRIO do Prof. Cezar
Martinez. Jornal O Progresso
20.08.1924, NUM 3.698, Anno XVIII)
RELATÓRIO Lusimaco, p. 30,
1924. Arquivo Público de Curitiba.
RELATÓRIO,
Prof. Cezar Martinez. p.62,1908. Arquivo Público de Curitiba.
Revista O Ensino, num.3,
anno1, Colégio Regente Feijó- Ponta Grossa.
SOUSA, Rosa Fátima de.
Templos de Civilização: A Implantação da Escola Primária Graduada no Estado de
São Paulo (1890-1910).São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1998.
VICTOR, Nestor. A terra do
futuro. Farol do Saber. Paraná: Curitiba 1996
[i] Doutoranda em Educação –Universidade Estadual de
Campinas –UNICAMP, Coordenadora do Grupo de Pesquisa HISTEDBR “Campos Gerais” –
Universidade Estadual de Ponta Grossa
-UEPG
[ii] Esse estudo integra o projeto nacional do HISTEDBR “História, Sociedade e Educação no Brasil,” sediado na Faculdade de Educação da UNICAMP, criado em 1991, sob a orientação Geral do Prf. Dermeval Saviani, e sob a coordenação executiva do professor José Claudinei Lombardi. O projeto tem a participação de vários Grupos de Trabalho, incluindo o GT dos Campos Gerais sediado na UEPG (Universidade Estadual de Ponta Grossa no qual estou inserida).
[iii] A produção historiografia que cita Campos Gerais no século XIX, é em grande parte saída dos integrantes do Instituto e Geográfico, que funciona desde 1838. Francisco Adolfo de Varnhagem, por exemplo, muito citado nos livros clássicos de História, bem como Auguste de Saint-Hilaire têm uma visão elitista descritiva da paisagem ao seu redor. Poderíamos chamar de um olhar geográfico. É claro que esta forma de ver as civilizações tem muIto das teorias históricas – geográficas da época, como o determinismo.
[iv] Grupos escolares recebiam sua designação por ordem numérica (grupo escolar n.1, grupo escolar n.2..) Poderiam também receber nomes especiais, por deliberação do Conselho, em homenagem a cidadãos que houvessem concorrido com donativos importantes para o desenvolvimento da educação popular (Grupos Escolar Senador Correia).
[v] “O nacionalismo da década de 1910 trouxe à baila os problemas do analfabetismo e do atendimento da escola pública às camadas populares.A opinião de vários profissionais da educação sobre o tema encontra-se no Anuário do Ensino do Estado de São Paulo de 1918” Apud, Souza,1998 p.106.
[vi]
As tropas, desde o século XVIII, partiam de Viamão, no Rio Grande do Sul, onde
eram
criados mulas e gado. A mula era um ótimo transporte pela sua resistência e
docilidade. O
gado era utilizado na produção de alimento. Sem saber ao certo se chegariam ao
seu
destino devido às dificuldades da época, os tropeiros tinham de lutar contra o
tempo, o
cansaço e o ataque de ladrões e índios.
Seu destino final, depois de mais de três mil quilômetros e três meses
de viagem,era Sorocaba, em São Paulo, local das maiores feiras de animais.
Muitas vezes, o percurso
também se estendia para Minas Gerais e para o nordeste, onde as mulas eram
utilizadas
para o transporte de cana-de-açucar. O perfil do tropeiro era construído pela
sua vida difícil e
rude. Tinha como referência sua própria palavra. Eram pessoas de confiança. A
grande
maioria era homens, mas havia mulheres que acompanhavam a tropa.
[vii] O “ciclo do mate” teve início no Paraná ainda em pleno “ciclo das tropas” referindo-nos às tropas xucras – que juntamente com a pecuária, deram origem ao povoamento e surgimento de povoados nos Campos Gerais. p. 144